Eduardo Moscovis voltou a fumar. Durante uma tarde chuvosa na casa em que mora no bairro de São Conrado, no Rio, o ator enrola um cigarro sem pressa e explica que, apesar de ter retornado ao hábito recentemente, já pensa em parar.

“Eu fiquei sem um tempão, mas fui fazer a peça ‘Um Bonde Chamado Desejo’ e o personagem fuma. Aí percebi que já tava com uma vontade louca de voltar e, agora, de parar de novo”, diz à repórter Marcela Paes.

O espetáculo, que foi elogiado pela crítica e é sucesso de público, é um dos projetos que Du, como prefere ser chamado, fez durante o período de nove anos afastados das novelas. Voltou em a “A Regra do Jogo”, que terminou no início deste ano.

“Existe um emblema. E todos os narizes torcidos para este emblema que é ser um ator da Rede Globo. Tem dois lados: o ator global e o ator global pejorativo. E às vezes nem o ator, só ‘o global’. Lá atrás eu vinha me questionando sobre o lugar que eu ocupava, e mesmo depois desse tempo ainda acho que não me desvencilhei dessa imagem”, diz ele, que afirma sempre ter tido “respaldo da emissora”.

Segundo o ator, a mudança de rumo na carreira foi motivada mais pela vontade de fazer coisas diferentes.

“Apesar de estar feliz com meu reconhecimento, eu tinha uma inquietude artística que foi o que me moveu. Tem uma galera do cinema que só trabalha com o ator das novelas, mas têm outros que querem o oposto disso e eu queria tudo, queria investigar, ser provocado e ir pra um lugar difícil.”

O longa “O Outro Lado do Paraíso”, que é inspirado em um conto de Luiz Fernando Emediato e ganhou melhor filme do júri popular no Festival de Gramado, é outro projeto de que Eduardo participou durante o tempo afastado dos folhetins. Na obra ele vive um trabalhador que se muda para Brasília no período do golpe militar, em 1964.

“Tem sim gente que está comparando o momento do filme com o momento que vivemos agora. E, claro, existem semelhanças. Mas eu não sei se o que está acontecendo é um golpe. Independentemente do nome que se dá, isso é muito grave. Eu sinceramente não consigo te dizer se sou a favor do impeachment da presidente Dilma, estou me questionando muito sobre isso. Mas até que ponto esse movimento não foi legítimo? E as pessoas nas redes sociais estão muito agressivas. Temos que ter mais calma.”

Para Du, a questão política é secundária no filme, que enfoca as relações e problemas de um menino que se vê obrigado a mudar de cidade.

O afastamento das novelas foi planejado, mas a volta, não. Eduardo ligou para a diretora Amora Mautner depois de ter lido em um jornal que ela e ator Caio Blat fariam algo sobre a obra do escritor russo Fiódor Dostoiévski. “Eu me interesso pelo universo do escritor e liguei numas de dizer ‘ó, se precisar de ator, tô aí [risos]’.” Amora aproveitou a oportunidade e fez o convite para novela.

“Foi engraçado. A Amora, com aquele jeito dela, já falou ‘olha, isso vai rolar, mas agora eu vou começar uma novela. Aliás, você faz teste?’ Eu respondi: ‘Pô, como assim, Amora? Claro que eu faço’ Mas pensando em como ia me organizar emocionalmente pra essa maratona que é uma novela”. Inicialmente Du foi cotado para o papel de Romero, que ficou para Alexandre Nero. Mas, já envolvido, encarnou o vilão Orlando.

Até o fim do ano ele lança o filme “Berenice Procura”, começa a gravar uma nova série para o GNT, dirigida por José Henrique Fonseca, e retorna para a terceira temporada de “Questão de Família”, no mesmo canal. “Estarei meio ocupado” [risos].

A cachorra Clara começa a latir. A vira-lata, encontrada na praia, foi adotada pelo ator e sua família. “Ela veio meio mancando e ficou seguindo a gente um tempão. Aí resolvemos trazer para casa”, explica, enquanto uma seleção de músicas, na maioria MPB, ecoa pelo ambiente amplo e iluminado.

Ele é casado com a apresentadora Cynthia Howlett, com quem tem dois filhos: Rodrigo, 4, e Manuela, 6. Eduardo também é pai de duas adolescentes, Gabriela e Sofia, de sua união com a diretora Roberta Richard.

Nas paredes da sala, além de muitas fotos de família e até de papeis encenados por ele (como Petruchio de “O Cravo e A Rosa”), há uma colagem com vários retratos feita pelos filhos.

“Eu tenho sorte de ter tido filhos com duas mães muito legais e que estão muito atentas, então já é meio caminho andado. Nosso exercício da paternidade é sim ficar louco e paranoico, mas ao mesmo tempo deixar que eles vivam, tem que ser tranquilo. Nós orientamos e deixamos viver. As duas mais velhas já estão saindo, voltam tarde, e a menor está observando isso e aprendendo, é um processo natural, uma rede muito legal. São todos super maneiros”, diz ele, antes de apagar o cigarro.

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