Naquela manhã de segunda-feira, o apartamento no 11º andar com vista rasgada para a praia de Copacabana parecia calmo. Um entra e sai das empregadas e o barulho de uma panela de pressão nos confins do imóvel indicavam alguma presença, mas a sala, a não ser por obras de arte e bibelôs, estava deserta.

Era o cenário perfeito para um crime de telenovela. Um corpo estendido ali, apunhalado pelas costas ou cravejado de balas, descansaria inerte, diante da visão daquelas ondas azuis lambendo a orla.

Dos tempos em que se mudou para o Rio como repórter nos anos 1960 até hoje, famoso por escrever algumas das novelas mais marcantes da TV Globo, entre elas “Tieta” e “Império”, o pernambucano Aguinaldo Silva trocou as portas de cadeia por uma vida de luxo, mas fala com nostalgia sobre as redações onde trabalhou cobrindo os crimes que chocavam a cidade.

“Quando vim pro Rio, com 20 anos, fui morar na Lapa, não essa Lapa cenográfica de hoje, que eu acho um horror, mas a Lapa verdadeira. Aprendi a conviver com o submundo”, lembra o autor, de frente para um quadro monumental, na sala de seu apartamento. “Eu queria era aquilo, a vida pulsando, aquelas coisas.”

Todas aquelas coisas ressurgem agora, com a riqueza de detalhes que marcam sua prosa, em “Turno da Noite”, livro em que Aguinaldo reúne e comenta algumas de suas reportagens publicadas em jornais como “Opinião”, “Movimento” e “O Globo”.

“Esse livro resgata o lado mais forte da minha vida, que é o lado de jornalista”, afirma. “Sinto saudades daquele jornalismo candente. Tinha sempre uma certa urgência. Hoje em dia não tem mais isso, não existe mais o chamado calor da hora. A gente perdeu um pouco a sensação de pegar o jornal de manhã e ver as novidades.”

Talvez seja mesmo a falta de novidades a grande força do livro. Na visão de Aguinaldo, aquele Rio em que corpos eram desovados em Santa Teresa, repórteres sabiam reconhecer marcas de tortura em cadáveres e havia espaço nos jornais para narrar cada detalhe grotesco de um crime foi o embrião, ou “ovo da serpente”, da “guerra civil” que marca o Rio de hoje, “onde morre mais gente que em Bagdá”.

Divulgação
Aguinaldo Silva (à dir.) nos anos 70 com o jornalista Otávio Ribeiro, conhecido como Pena Branca
Aguinaldo Silva (à dir.) nos anos 70 com o jornalista Otávio Ribeiro, conhecido como Pena Branca

No papel de copidesque, o profissional que revisa a primeira versão de uma reportagem, e já viciado no estilo de mestres do jornalismo literário como Truman Capote e Gay Talese, Aguinaldo dava ares de folhetim, ou mesmo de cinema, às narrativas mais escabrosas desde os seus primeiros anos diante de uma máquina de escrever.

Um corpo encontrado com quatro buracos de bala e 14 coronhadas na cabeça dentro de um carro numa rua deserta é descrito como “despacho a Exu”. O sequestrador do menino Carlinhos, caso que comoveu o Rio nos anos 1970, também surge como um marginal de “detalhes clássicos”, armado e com lenço no rosto, enquanto uma suspeita de matar dois homens é a “típica garota de Ipanema, bronzeadíssima, magra, longos cabelos negros, olhos de mormaço”.

ARQUÉTIPOS VIOLENTOS

Nesse sentido, mais do que descrever os crimes, Aguinaldo parece sair em busca de arquétipos do bem e do mal –heróis, bandidos, mocinhos e vilões– em suas andanças pelo mundo da violência.

Mesmo na ditadura, tendo de mandar textos para censores antes da publicação, Aguinaldo diz que se sentia mais livre escrevendo em jornais –e essa liberdade se revela na descrição “psicossocial” de seus personagens– do que fazendo suas novelas na TV.

“Quando você escrevia naquela época, o jogo era aberto. Os caras censuravam, pronto e acabou”, conta. “Hoje existe uma censura subjetiva, que é o argumento do limite de idade para que alguém possa ver aquilo na TV. E, pior que a censura, o politicamente correto acaba com qualquer ficção. Não pode mais falar isso e aquilo porque é ofensivo, e a cada dia essa lista de ofensas vai se tornando maior.”

No fundo, mesmo se dizendo um “gay pintoso” entre os “brucutus da reportagem policial”, Aguinaldo é um sujeito à moda antiga –sua coleção de arte, com obras que vão até os anos 1950, no máximo, deixa isso claro.

E diante do que vê como overdose de cuidados nos roteiros e reportagens de hoje, ele planeja encenar sua próxima novela numa cidadezinha isolada, sem telefone ou internet. Esse universo fantástico, tal qual os mundos paralelos que criou em novelas como “Fera Ferida”, “Pedra sobre Pedra” e “A Indomada”, é sua arena onde tudo pode, e as alegorias mais alucinantes de fato versam sobre a realidade mesmo sem tocar nela.

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