Lívia Andrade tem 34 anos e é madrinha de bateria da Império de Casa Verde, escola em que ela desfila desde os 10 anos de idade. (Foto: Celso Tavares/G1)

A Império de Casa Verde vai fazer uma crítica social na avenida este ano e terá a participação de Edi Rock, do grupo Racionais MC’s.

“Esse samba é um dos mais bonitos que a Império já teve. Eu achei incrível a comparação do nosso momento político atual e essa comparação com o momento da Revolução Francesa e o musical Os Miseráveis. Tudo isso chamando o povo para a rua. Achei incrível e tem tudo a ver com o carnaval: essa manifestação única misturando diversão, informação e protesto. Veio para coroar esse momento que a gente está vivendo”, opina ela.

1) Como começou sua relação com a Império de Casa Verde?

Sou nascida e criada no bairro da Casa Verde e participo do carnaval desde os 10 anos. Antes disso eu ia até a avenida para ver as escolas de samba do bairro ensaiarem e aquilo me encantava. Achava tudo muito bonito, tudo muito mágico. Sempre me imaginei ali. Com 10 anos eu e uma vizinha conseguimos fantasias na ala das crianças. A parte difícil foi convencer a minha mãe a me deixar participar de uma escola de samba. Eu pentelhei tanto a minha mãe… Mesmo com a negação eu acabei indo para esse desfile. Fiquei horas lá. As crianças chegam antes, você fica com um crachazinho, tem um lanche com [refrigerante] Tubaína, a gente vai de ônibus com as monitoras. E mesmo chegando lá oito horas antes do desfile da escola eu achei tudo aquilo muito lindo e muito mágico. Quando você chega na avenida e vê naquelas luzes, aqueles carros maravilhosos… E tudo brilha, tudo acende, tudo se mexe. Aquilo é a Disneylândia de uma criança que nunca teve a oportunidade de viajar para fora do país e frequentar os parques. Eu me apaixonei. E a primeira sensação de cruzar a avenida naqueles holofotes marcou a minha vida e desde então eu nunca deixei de desfilar.

2) Como é a preparação para ter fôlego para cruzar a avenida? Qual é a pior coisa que pode acontecer na avenida?

A preparação para o desfile acontece nos ensaios de rua, de quadra e técnicos. A malhação não substitui os ensaios. É preciso ensaiar mesmo para aprender todas as paradinhas da bateria e a fazer o percurso da escola no dia. A pior coisa que pode acontecer na avenida é o sapato quebrar. Isso já aconteceu comigo. Perdi a sola das sandálias dos dois pés no início do desfile. Aí vira um sabão porque o acrílico com o piso do Sambódromo, que é pintado, fica liso. E ainda choveu no dia. Virou um sabão. Então foi muito difícil para mim. Eu caía e aí comecei a inventar uma coreografia fazendo de conta que aquilo fazia parte da minha coreografia porque toda hora eu estava ajoelhada no chão. Mas é muito ruim porque você não curte, é bem estressante, você fica preocupada o tempo todo. Todo o resto dá para dar um jeitinho, mas o sapato… Você não samba, não se diverte, não se locomove com tranquilidade.

3) É o sonho de toda mulher ser rainha de bateria?

Não sei se é o sonho de toda a mulher, mas para quem frequenta as escolas de samba, para quem é da comunidade, a bateria é o coração da escola. É o lugar mais animado, é onde tem mais energia. E todo mundo que está ali acho que gostaria de estar tão perto quanto as rainhas, madrinhas, princesas… O importante não é o cargo, o que está escrito na sua faixa. O importante é estar na bateria. Já fui musa, já fui princesa, já fui rainha… Já tive todos esses cargos e posso te garantir que o cargo não muda muito, o que importa é estar à frente da bateria.

4) O que o público pode esperar da sua fantasia? O que você vai representar no enredo?

Eu sempre procuro fazer algo diferente, inovar. Uma maquiagem diferenciada, ou interpretar um personagem na avenida… No carnaval é tudo muito bonito, né? As mulheres estão sempre bonitas, tudo brilha, muitas penas, muito faisão… Eu procuro vir diferente, mais temática, mais caracterizada, mais personagem do que só o lance da beleza e ostentar uma bela fantasia. A cada ano que passo a gente procura se superar. Ainda é surpresa, estamos tentando fazer algo bem diferente. Ainda não é certeza de que vai dar certo, mas se der com certeza será surpreendente.

5) Onde você aprendeu a sambar?

Eu aprendi a sambar na escola de samba mesmo. Minha primeira escola era a Unidos do Peruche, vizinha da Império. Eu não digo que eu aprendi a sambar lá, mas foi o início, foi meu prezinho no samba. Eu sempre prestava muito atenção em quem sabia sambar e quando eu chegava em casa eu colocava o som e ficava sambando na frente do espelho. Com o tempo fui vendo que cada pessoa que eu admiro no samba tem um jeitinho de sambar, cada uma faz uma graça. Aí você vai aprendendo e aperfeiçoando o samba no pé. Não dá para dizer que nasceu sambado.

6) A Império vai falar sobre o povo neste carnaval. O que você achou do tema da escola este ano?

Esse samba é um dos mais bonitos que a Império já teve. Eu achei incrível a comparação do nosso momento político atual e eles fizeram essa comparação com o momento da Revolução Francesa e o musical Os Miseráveis. Tudo isso chamando o povo para a rua. Achei incrível e tem tudo a ver com o carnaval: essa manifestação única misturando diversão, informação e protesto. Veio para coroar esse momento que a gente está vivendo.

7) Você sofre preconceito por participar do carnaval? Já foi vítima de algum tipo de assédio sexual?

Desde pequena eu ouço as pessoas falando que escola de samba não é lugar para criança, não é lugar para mulher… Eu comprovei que eles não estavam certos. É lugar para criança sim, é lugar de muito respeito sim. É lugar para a família! Eu me apaixonei por isso e nunca tive grandes problemas para pensar em parar de desfilar. Claro que tem muitas pessoas com comportamento esquisito. Mas eu nunca deixei que um comentário machista ou algum tipo de preconceito mudasse a minha opinião em relação ao carnaval e à comunidade do samba. Acho que é um lugar para todos, um lugar seguro e de diversão para a família. E também é cultura porque você aprende muito, afinal o samba conta uma história na avenida. Nunca tive nenhum problema com assédio em escola nenhuma. Porque é um lugar onde os diretores e os presidentes impõem respeito. É um lugar onde existe muito respeito e hierarquia.

Eu me sinto bem à vontade mesmo estando com roupas pequenas, com biquíni e fantasias de carnaval. Eu sei que todo mundo ali está igual, na mesma, lutando por um ideal. Nunca tive esse tipo de problema dentro das escolas e sim fora com a opinião das pessoas de fora que não participam, que não conhecem e que não sabem do que estão falando. Tem gente que pergunta porque eu não deixo o carnaval de lado, que isso pode atrapalhar a minha carreira, que esse tipo de roupa que uso no carnaval não é legal. Já ouvi muito isso e acho uma palhaçada. Não tenho de mudar meus gostos e minha maneira de ser e o que eu gosto de curtir porque alguém acha que vai prejudicar a minha carreira ou a minha imagem. Eu sou uma prova disso, estou há tantos anos na televisão e nunca abandonei o samba. Graças a Deus aos pouquinhos eu vou conquistando mais o meu espaço.

8) No último ano milhares de mulheres romperam o silêncio e denunciaram assédios que sofreram nas suas vidas e no trabalho. O que você achou deste movimento? Acha que mudou alguma coisa na relação entre os homens e as mulheres (em geral) e entre homens e musas de escolas de samba?

Tenho um programa de rádio chamado Liberta, para falar justamente sobre isso, para as pessoas se libertarem das coisas, pararem der engolir sapo, não se vitimizarem, não permitirem humilhação. Eu incentivo as pessoas a botar a boca no trombone mesmo, a falar e a se libertar. Eu acho importante tomar atitude, partir para cima, dar a sua opinião sem ter medo. Não acho bacana a pessoa viver anos desconfortável porém favorável e quando essa situação deixa de ser favorável aí que a pessoa toma uma atitude. Acho que as pessoas têm sim de denunciar e tomar uma atitude. Principalmente se estão dentro do seu direito.

9) Existe um padrão de beleza para poder desfilar na avenida?

Eu desfilo há mais de 20 anos no carnaval e nem sempre meu corpo estava 100%. O carnaval faz parte da minha vida independente do corpo. Você não pode desfilar no carnaval tendo o corpo como prioridade. Você vai lá se divertir, lutar por sua escola e o corpo vem junto. Mas isso não significa que você tem de seguir um padrão. Na escola de samba todo mundo tem de se divertir igual, não existe um padrão de corpo no samba. Todo mundo está fantasiado e se diverte igual. Eu já fui para avenida e não estava preocupada com meu corpo, não malhava, não fazia preparação. Eu ia para o ensaio, vivia minha vida, fazia meu trabalho e desfilava. Independente se eu estava bem ou não para estar ali sambando. Nunca levei o corpo como prioridade e, sim, o carnaval é minha prioridade, a minha diversão e meu compromisso com a escola. Para mim não existe um padrão de beleza, com ou sem celulite, magra ou mais gordinha. Uma mulher bonita é uma mulher segura e feliz. Quando você está se divertindo na avenida, quem se destaca no samba, quem aparece na telinha da Globo, nos jornais e nas fotos? A pessoa que está brilhando, feliz, se divertindo. São essas pessoas que se destacam e não as pessoas que têm corpos perfeitos.

10) Qual é a importância do carnaval para a comunidade?

O carnaval muda a vida de muita gente. Coloca o pão de cada dia na mesa da comunidade. Muita gente trabalha em função do carnaval, então é uma fonte de renda. A escola de samba tira o pessoal da rua e leva para a quadra seja para ensaiar, cantar, tocar um instrumento… É muito bom para a comunidade interagir com as escolas de samba. Isso com certeza muda a vida. Sei de vários casos. Tenho conhecidos que estudaram comigo e mudaram suas vidas por causa do samba. A música, o samba e a cultura muda a vida de pessoas. A Império mudou a vida de muita gente que eu conheci bem de pertinho a história. Tenho dois conhecidos que eram meus vizinhos que foram presos por vários motivos e hoje eles tiveram a sua segunda chance. Eles trabalham e ganham dinheiro, se ocupam ali e estão muito felizes e bem. Fico feliz quando vejo esses exemplos e o que a escola pode fazer por uma pessoa.

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